Ontem
Ontem fiquei conversando com a minha mãe durante duas horas.
Ela, lembra muito do passado. Então, fui dormir com uma dúvida na cabeça: Será que ela ainda gosta do meu pai?
Sei lá, sinto ela meio triste, ultimamente. Talvez, ela ainda pense no por que o casamento dela não deu certo, sabe? Enquanto, o da prima dela com o amigo do meu pai, tá dando certo, até hoje.
Eu nunca passei por um relacionamento. As meninas que eu queria, nunca me quisseram. Talvez, seja por causa da minha deficiência física e mental. Mas, deve doer se separar de alguém que você gostava muito. Ainda mais, quando é por traição. Sim, o meu pai traiu minha mãe.
Eu não gosto de traição. Nunca aceitei meu pai com outra mulher.
Mas hoje, eu aprendi, que, ninguém controla ninguém e que ninguém é dono de ninguém. Por isso, as pessoas, procuram outros caminhos pra seguir, mas é foda, quando você é traído por alguém. Você se sente um nada. Mas o meu pai, nunca foi uma pessoa boa. Apesar de trabalhador.
Hoje, eu compreendo ele. Talvez, ele tenha traumas que não soube trabalhar na infância. Por isso ele, é assim. Mas ele, é uma pessoa muito livre. Viaja muito. Porém, só vi o meu pai chorar no dia da morte da mãe dele. Apesar da polêmica que teve depois do enterro, teve gente que perguntou: ''Ele chorou ou, não?''
Não sou muito de defender meu pai. Pra mim, ele é um bosta. Mas ele, chorou, sim. Abraçado com o amigo dele, de muitos anos. Mas, já tinha fechado o caixão e, todo mundo já tinha saído fora. Eu tinha 14 anos, naquela época, mas eu lembro bem, da morte das minhas duas avós. Tudo em 2009 e da mesma doença. Câncer. Minha avó paterna morreu de câncer na medula e minha avó materna teve um linfoma.
Eu tenho medo de ter câncer, mas não por causa da família. Mas por causa, do cigarro. Não quero demorar pra morrer. Quando eu morrer, eu quero morrer rapidamente. Um infarto fulminante. Seria bom. Mas, sou muito jovem ainda. Sou jovem pra ser velho.
Talvez, o meu pai tenha trauma da morte do pai dele, que morreu de cirrose em 1985. Ou, porque, ele foi chamado de ''ladrão'' no colégio. Mas ele, sempre segurou os sentimentos. E me ensinou assim.
''Engole o choro, mariquinha!'' Talvez, por isso, eu tenha passado em vários psicólogos e agora, tenho problema na cabeça. Porque, eu era muito seco e nunca demonstrei sentimentos.
Minha mãe, está muito triste. Com tricotilomania. E talvez, seja por tudo o que ela já passou na vida.
Eu me sinto meio culpado. Apesar dela, nunca me culpar pela tristeza dela. Mas eu, já errei muito na vida. Comigo mesmo, com as pessoas. Apesar de, terem errado comigo, também. Mas, todos seguiram suas vidas e eu, segui a minha. Porém, ainda me lembro dos erros que cometeram comigo e que eu, cometi. Mas agora, sou satisfeito com a vida. Apesar de achar que, estou pagando por alguma coisa.
Meu pai sempre me culpou pelas coisas de ruim que aconteciam na vida dele.
Uma vez, ele disse pra minha mãe: ''Ele mexe com o psicológico da gente. Procura um psicólogo pra ele, pelo amor de Deus''.
E ele, sempre me questionou sobre o dinheiro da pensão: ''O que sua mãe faz com o dinheiro?''
E ele, sempre culpou minha mãe por eu ter me afastado da família dele. Mas, se algum dia, ele ler esse relato, ele pode ficar tranquilo, pois quem me fez afastar-me, foram o Mauricio e o Jhonny. O Mauricio, me mandou embora, e eu nunca mais voltei. E quando eu voltei, ele quase me bateu.
Mas eu, não vim falar sobre o meu pai. Foi um assunto que saiu. Mas sim, sobre o começo da minha vida.
Nasci numa quarta-feira chuvosa, 20 de outubro de 1994. Gravidez de risco, disse o médico. Nasci vesgo e com problema na perna direita. Isso me fez blasfemar durante muito tempo. Porque, minha mãe, sempre falava: ''Foi Deus que quis assim''.
A família do meu pai, nunca aceitou minhas limitações. Eu era muito humilhado por não saber cortar uma pizza num restaurante. Meu pai sempre falava: ''Você nunca vai conseguir uma namorada assim''.
E é verdade. Nunca consegui uma namorada, mas as meninas que eu pedi pra ficar, nunca me viram cortar uma pizza. Então, acho que não foi por causa disso. Talvez, pelo meu jeito obsessivo ou, sentimental, nunca tenha conseguido ficar com alguém. Mas hoje, não sinto falta disso.
Sofri muito bullying no colégio. Eu lembro, até hoje, de quem me fez mal ali. Mas todos seguiram suas vidas, como se nada tivesse acontecido. E foi eu, quem carregou as marcas da automutilação, que eu pratiquei por anos. Me sentia rejeitado, medroso e com ansiedade.
Mas também, fiz alguns poucos amigos. Que também, seguiram suas vidas.
Fui diagnosticado de várias formas: Depressão grave, bipolaridade, transtorno de personalidade tipo 2 e agora, esquizofrenia.
Com 12 anos, eu me apaixonei. Ela era um ano mais velha e tinha namorado. Eu queria ''roubar'' ela pra mim, mas ela era difícil. Fiquei dois anos xavecando ela. Ela, já me pediu desculpas por ter me chamado de ''gentinha'' e, veio me visitar em 2018 porque eu, tava brigando muito com a minha mãe.
Naquela época, o meu avô tinha morrido de Doença de Chagas e eu, tinha fumado maconha com meu primo e um amigo dele, que segue a religião Rastafari. Eles até iam me chamar pra fumar de novo, mas minha mãe, acabou brigando com esse meu primo. Por causa de dinheiro, terreno, etc.
Acho que tudo isso, mexeu com a cabeça da minha mãe, sabe? Por isso, essa ansiedade.
Já eu, brigava muito com os meus tios. Eu ouvi muito: ''Você não trabalha'' e, ''Interna esse moleque'', por dois tios diferentes, mas da família da minha mãe.
O meu tio que falou: ''Interna esse moleque''. Já brigou comigo, bêbado e na frente da minha avó paterna, quando ela tinha o bar. E falou pra secretária do Hospital das Clínicas: ''Ele tem problema!'' Mas ele, é o único irmão que minha mãe gosta. Mas por mim, ele não pisaria mais aqui em casa.
Hoje mesmo, minha mãe disse: ''Ele foi grosso comigo''.
Já o meu tio que falou: ''Você não trabalha'' xingou minha mãe e quis bater nela. Até hoje, ela tem trauma dele. Mas se falam, hoje em dia. Porém, não é a mesma coisa.
Eu ia muito pra rua, pras festas de funk, black e música eletrônica. Mas nunca, soube empinar pipa e rodar pião. Jogava muito vídeogame, lia a Revista Veja e, via alguns desenhos na TV.
Já recebi bosta na cara, já apanhei duas vezes e já me apaixonei por tantas meninas que meu coração, nem aguenta mais. Mas, não reclamo da vida, não. Eu também, já errei muito na vida. Hoje, não tenho mais força pra brigar pelo que eu acredito. A fase hippie, já passou. E eu, dependo da minha mãe pra tudo. Por causa da doença na cabeça.
Porém, não reclamo da vida. A gente pensa: No quarto a gente engole o mundo, mas não vê, que é o mundo que está engolindo nós mesmos.
Hoje, eu acordei às 19:00. Tomei banho. Comi churrasco. E fiquei ouvindo as músicas que eu gosto. Talvez, isso seja a solução pra tudo. Desde quarta-feira, eu não tomo banho. E dizem, que quem tem esquizofrenia paranóide, é complicado tomar banho mesmo. Mas, não reclamo mais da vida.
A minha mãe precisa de mim. E se importa comigo. Mas eu, fico triste quando ela está deprimida. Apesar disso, ela me faz rir e está mais carinhosa. E isso, é bom.
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